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Espontaniedade

20 de abril de 2010

Chegamos, andamos e rodamos pelo lugar observando os resturantes, por sinal eram eles a maioria naquele lugar, ambientes convidativos e todos ofereciam um “Quê” de luxo. Rodamos uma outra vez agora prestando mais atenção aos cardápios.

-Ah ! Aqui tem o Spetaculo. Acho que é ali, mas não vejo placa. Digo a ela, dando alguns apertos na mão dela que seguro.

Ela faz uma cara de quem gostou da ideia e me puxa com a mão, será que é o que pensávamos? Pareciamos dois perdidos, encaravamos as pessoas e os pratos atrás de alguma pista que nos indicasse que aquele seria o lugar a qual procuravamos.

-Olha o porta guardanapos, tem a marca deles, é aqui. Disse eu novamente.

Ela veio e nos adentramos entre as mesas até sermos conduzidos pelo garçom.

-A do cantinho né?! Raquel diz pra mim sorrindo enquanto alcança a mesa do cantinho.

Abrimos o cardápio.

-Agora já era sentamos, isso porque estamos sem dinheiro. Disse ela com um sorrisinho gostoso no rosto. – Ah, mas também temos que aproveitar né? Complementou ela.

-Todos parecem gostoso, e agora ?

-Pode ser qualquer um, menos que tenha peixe.

-Tá bom, o que acha da picanha? Ou o medalhão.

-Não sei, vamos de medalhão.

Então o garçom novamente veio, e fizemos o pedido, um prato de medalhão ao molho madeira e uma cerveja com dois copos, ou dois copos e uma cerveja. A cerveja em meia taça balançava conforme conversamos, a conversa como sempre parecia ser um dos pratos gostoso ali servido, e quase tinha aroma. Em um determinado momento ainda na primeira cerveja, me perco na graciosidade de seus gestos e o jeito doce como fala me dispersa da conversa mas me prende a ela penso, comigo mesmo:

-Que ótimo dia, eu te amo.

Sinto uma sensação de reconforto que tenho sentido todos os dias, na sua conversa, nos seus olhos e cheiro.

Em alguns momentos nossas mãos se tocavam e se deslivam. Não tinhamos ido com a pretensão de nos servir um banquete, mas sim conhecer, e de espontaniedade em espontaniedade tivemos um dia perfeito.

Instante

20 de abril de 2010

A luz que entrava pela janela não incomodava, pelo contrário, enchia o ar de um mistério embriagante. Percebiam apenas as siluetas, o molde das coisas, dos corpos, do outro.

Ao toque dos lábios os olhos quase se abriam, a mão por entre os cabelos fazia com que um leve arrepio percorresse o corpo. Não era dia, nem era noite, era um instante, “o” instante. O mundo, por assim dizer, se afastava. Os corpos se tocavam o que trazia a uma das mentes uma sensação de queda livre, enquanto ao outro só fazia pensar em coisas sem sentido, ou com todos eles.

Adormeceram.

O sono parece acalentar aqueles espíritos, não a nada a pensar, eles por algum motivo se bastavam, naquele instante, era o suficiente.

Gemada

20 de abril de 2010

–       Garçom.

Passa uma jovem e Marcelo olha (câmera subjetiva na garota passando).

Chega outro velho, Antônio, e comenta com o Marcelo, que está distraído olhando a jovem:

–          Que safra, hein!?!

Marcelo vira, ri:

–          Grande safra!!!

Antônio senta na mesa e faz sinal para o garçom trazer um chope para ele também.

Antônio: – Cada neném…

Marcelo: – Nem me fale.

Antônio fala olhando para as mulheres do local (câmera subjetiva): Lindas! (em off, diegético)

Marcelo (ironicamente): – E desinibidas.

Antônio (entusiasmado): E digo mais: desinibidas (com mais ênfase) e sem preconceitos!

Marcelo (ironicamente): eu diria informais! (tom normal) Nenhuma chama a gente de senhor.

Antônio ri e balança a cabeça concordando. Fica um pouco pensativo e diz:

–          Agora tem uma coisa…

Marcelo: – O quê?

Antônio: – Não sei se isso acontece com você, mas às vezes… (pára e fica pensativo)

Marcelo cutuca o outro e diz (ansiosamente): – O quê? Fala Toninho!

Antônio: – Falta papo. É ou não é?

Marcelo: – Como assim?

Antônio: – Sei lá. Tá certo que o que a gente procura nelas não é estímulo intelectual. Mas de vez em quando a gente gosta de… (gesticula) né mesmo? De bater um papo mais … (gesticula como quem quer dizer uma coisa e não termina, pois o amigo já o entendeu), né?

Marcelo (ironicamente): Nem que seja pra recuperar o fôlego – risos

Antônio bate na mesa: – Exato! E não dá! Essa geração não leu nada.

Marcelo levanta o copo como quem vai fazer um brinde: – Nada! (e dá um gole)

Antônio (ironicamente): – Antigamente ainda liam “O Pequeno Príncipe”.

Marcelo: Liam “O Pequeno Príncipe” demais, pro meu gosto.

Antônio (exaltado e gesticulando): Mas liam! (menos exaltado) Quer dizer (fazendo gesto de mais ou menos) rendia aí uns cinco minutinhos de conversa. Hoje, nem isso.

Nesse momento uma jovem se aproxima da mesa e cumprimenta, com um sorriso, o Antônio e, com um beijo no rosto, o Marcelo, deixando nítido que ela tem maior intimidade com o Marcelo.

Jovem: – E aí, tudo bem!

E vai logo sentando na mesa.

Antônio devolve o sorriso. E Marcelo dá uma olhadinha maliciosa para Antônio e diz (com ironia disfarçada):

– Oi minha flor, melhor agora com sua ilustre presença.

Jovem (meio sem graça): Ãhn… Só você pra melhorar o meu dia! (risinhos)

Antônio: – Então moça, como andam os estudos?

Jovem: – Estão indo bem. Só estou um pouco cansada, final de semestre você já viu, são muitos trabalhos para serem entregues.

Antônio: – Mas você não tá tirando nem um tempinho pra relaxar?

Jovem: – Não, tenho que me dedicar aos estudos primeiro, depois, nas férias, eu descanso.

Marcelo: (entusiasmado e jogando um xaveco) – Nossa! Que mulher dedicada! Posso até dizer exemplar! Mas não tem nem um tempinho pra ir ao cinema?

Antônio: – Falando em cinema, vocês viram o filme que vai estrear?

Marcelo faz uma cara de quem não sabe

Jovem: – Qual?

Antônio: – “Jogo de cena”.

Jovem (faz uma expressão de quem já sabe sobre o filme): – Ah, sim! Eu li sobre esse filme.

Marcelo: – É, eu também ouvi falar. Dizem que esse filme mostra a alma do povo brasileiro, aquela que ninguém vê.

Antônio (balança a cabeça concordando): – O diretor mescla, e às vezes não diferencia, mulheres reais (faz com as mãos os gestos de aspas quando fala “reais”) e atrizes.

Jovem (com uma expressão de quem está muito entendida sobre o assunto): Pois é, esse documentário (faz uma expressão de quem sabe mais do que eles sobre o assunto na hora que ela fala “documentário”, já que o filme se encaixa no gênero de documentário) é uma metáfora muito forte do que está acontecendo no Brasil. Quando um senador nega todas as evidências do que fez. Quando o presidente diz que nada sabia e nada saberá, onde está a verdade? Onde está a mentira? Onde está o ator? Onde está a personagem? As coisas que acontecem no Brasil estão surreais.

Marcelo e Antônio se olham boquiabertos, como se estivessem espantados com a fala da jovem.

Marcelo (espantado com a fala): – É verdade. De uma forma irreal.

Antônio (mudando de assunto): – Surreal é a chance do terceiro mandato presidencial!

Marcelo (tentando tirar a cara de espanto): – É mesmo. (com cara de desprezo) Quem diria, né!? O Lula que se diz o presidente que veio do povão e está no poder pra representar a sua classe, querendo armar uma dessas.

Antônio (balança a cabeça, concordando meio injuriado com a situação do país)

Jovem (cheia de si): – É, costuma-se nomear o governo de Lula como sendo o Governo do povo. Mas na verdade ele é uma mistura de autoritarismo lenista, que cruzou com o germe do sindicalismo oportunista e com o populismo pós-getulista.

Antônio e Marcelo se olham ainda mais boquiabertos

Jovem (com ar soberano, como se estivesse discursando para uma multidão): – É como eu sempre repito: O Estado corrompe os homens. Ele mente friamente: “Eu, o Estado, sou o povo”. Isso é uma mentira! O Homem só começa a existir quando termina o Estado.

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